ANTÓNIO JOAQUIM GRANJO | 1881-1921
Hoje assinala-se o centenário da morte do ilustre flaviense António Joaquim Granjo, que morreu brutalmente assassinado com 39 anos, a 19 de outubro de 1921, em Lisboa, quando desempenhava as funções de Presidente do Ministério, ou seja, Presidente do Governo Português, cargo que equivale hoje ao de Primeiro-Ministro.
António Joaquim Granjo nasceu em Chaves no dia 27 de dezembro de 1881 e a sua atividade política começa no contexto das greves estudantis em Coimbra - quando, em 1907, integra o Comité Revolucionário Académico – e consolida-se, logo a seguir, por via da organização de um núcleo revolucionário em Chaves e da participação no Comité Revolucionário de Trás-os-Montes, onde tem um importante papel na propaganda republicana.
Foi advogado, deputado e Ministro na Primeira República, defensor de Chaves em 1912, e um dos líderes mais importantes da Primeira República.
O dia da sua morte ficou para sempre registado na história de Portugal como “A Noite Sangrenta” à qual esteve associada a “Camioneta Fantasma”, acontecimentos e morte que viria a ditar o fim da 1ª República de Portugal.
Transcrição do momento do assassinato
“Num ápice um impulso violento arrebata a multidão e sem que alguém tivesse força para deter esse bando de loucos, nem os atónitos e cobardes Oficiais nem os elementos da Junta, tiveram coragem ou autoridade para valer. Ao monte galgaram as escadas e intempestivamente surgiram à porta do quarto. O que a seguir se passou é indescritível e a vergonha e cobardia dos que assistiram não deixou relato, restando apenas o que os jornalistas dramaticamente, quiseram impressionar e se inventou.
A frente dos energúmenos, António Granjo, plenamente consciente do seu destino, num último desforço, enfrenta-os e grita-lhes ainda, "não tendes o direito de me matar!"
Magnífico, depois de todos os desafios vividos nas últimas horas, regressara-lhe a altivez e a força do carácter que sempre o personificara, domina o dramatismo do momento e personifica "o Granjo" valente e resoluto de muitas histórias. Voltara-lhe o orgulho, a fibra do génio. Punhos cerrados, cabeça erguida, olhos cintilantes, repetia-se o Granjo. Ele próprio, num ápice derradeiro, adivinhando que não vencia a loucura dos assassinos, terá avaliado que esse seria afinal o remate de uma vida e queria merece-Io com o valor de sempre.
Increpa-os quase com desprezo: "Aqui me tendes! Matai-me! Matais um republicano!"
Seguiu-se a fuzilaria. Eram onze horas da noite. António Granjo encostado a uma das paredes, caiu varado por doze balas. Ensanguentado, corpo estendido no chão, os assassinos exultam o seu triunfo. Depois, ainda o corpo no soalho ensanguentado, um dos assassinos esmagou-lhe o crânio à coronhada. outro, um clarim da Guarda Republicana, atravessou-lhe o peito com o sabre.
A violência do golpe foi tanta que a lâmina ficou presa no soalho e para a retirar a besta teve de fazer força com a bota imunda sobre o peito do mono. Exultava, aos brados para os outros, "Olhai! Vinde ver de que cor é o sangue do porco!" O corpo do Granjo horrorizava, a cabeça desfeita, o peito e o ventre a nu, rasgados e violentados, a roupa estrilhaçada e desfeita, braços e pernas desconexos, tudo num conjunto bárbaro, amalgamado em sangue que manchava as paredes lúgubres dos quatro cantos do aposento.
Cometido o crime, ainda exibindo orgulhosamente as manchas de sangue, exultam o triunfo, clamam-se heróis, elegem-se executores radicais de uma justiça suprema prestada às ofensas da República.”
MACHADO, Júlio M., O Granjo, Biografia de António Joaquim Granjo, 2010




